Um romance da Cooperativa Aurora
Esta é uma obra inteiramente fictícia e original, preparada como material de teste de edição. Pessoas, lugares, organizações e acontecimentos pertencem à imaginação. A narrativa inclui repetições deliberadas e variações de cenas para exercitar seleção, importação, edição e preservação de formatação em textos extensos.
Lia revisa histórias; Tomás cuida da plataforma que as recebe. Na cooperativa Aurora, um festival se aproxima, o editor precisa de reparos e uma colaboração improvável começa a ocupar mais espaço do que qualquer um dos dois havia reservado para o amor.
Capítulo 1 A senha do elevador
O barulho vinha da rua, mas a inquietação estava dentro da recepção. Lia tentava compreender a chegada de Lia à cooperativa de histórias Aurora, enquanto Tomás girava entre os dedos uma tampa de caneta. Perto deles havia um crachá sem nome, testemunha modesta de uma conversa que ninguém planejara ter. Não era uma manhã extraordinária: o pão estava seco, a janela emperrava e alguém esquecera de repor o sabonete. Justamente por isso, ela desconfiou que lembraria daquele instante. As grandes decisões, descobrira, quase nunca pediam licença para acontecer entre duas tarefas pequenas.
Tomás tinha o hábito de reler a última linha antes de salvar. Lia julgara aquilo uma superstição até descobrir que ele perdera, anos antes, o diário de uma comunidade inteira numa atualização apressada. Não perdera os arquivos para sempre; recuperara quase tudo. O quase, no entanto, continuava lhe ocupando a memória. Havia uma receita sem o nome da avó, uma carta sem despedida, um poema com a última estrofe deslocada. Por isso, quando dizia que precisava de mais alguns minutos, não estava pedindo tempo para parecer cuidadoso. Estava tentando merecer a confiança que recebera.
No caderno, desenharam um caminho com três paradas e uma seta de retorno. Lia insistiu que qualquer pessoa deveria conseguir voltar atrás sem perder o que escrevera. Tomás acrescentou uma pequena anotação sobre a última versão salva. Não estavam discutindo apenas botões. Estavam pensando na coragem necessária para apagar uma frase e experimentar outra, na liberdade de testar uma voz sem entregar a anterior ao esquecimento. Quando Bia voltou, perguntou por que os dois encaravam um desenho de ônibus com tanta seriedade. Eles riram e, ainda assim, guardaram o esquema.
09h01 | Lia: Sobre a chegada de Lia à cooperativa de histórias Aurora: você consegue me ouvir por cinco minutos?
09h58 | Tomás: Consigo. Fechei as outras janelas. Pode começar.
⁂ • ⁂
Quando Tomás entrou na recepção, Lia já havia escrito três possibilidades para a chegada de Lia à cooperativa de histórias Aurora. A quarta permanecia na ponta da língua, dependente de uma coragem que o café não fornecia. Sobre a mesa repousava um crachá sem nome. Ele perguntou se podia abrir a janela; ela respondeu que sim, embora o vento espalhasse seus papéis. Passaram alguns minutos recolhendo folhas pelo chão. No fim, as alternativas estavam fora de ordem, e nenhuma parecia tão definitiva. A desorganização tinha concedido à conversa uma gentileza inesperada.
Bia dissera que uma cooperativa era uma máquina esquisita: funcionava melhor quando alguém podia admitir que estava cansado. Lia achara graça, mas agora reconhecia o trabalho contido na frase. Havia prazos, contas e uma pilha de pedidos. Havia também gente que voltava do hospital, gente que criava filhos sozinha e gente que só conseguia escrever depois do último ônibus. Uma interface aparentemente simples carregava todos aqueles horários. Ao observar Tomás afastar o celular para escutar um relato inteiro, ela compreendeu que parte do projeto acontecia precisamente quando ninguém digitava nada.
— Eu não pedi uma solução agora — disse Lia. — Pedi companhia.
— Certo. Posso começar ficando aqui?
Ela assentiu. Parecia uma negociação pequena, quase ridícula diante da lista de tarefas, mas mudou o ritmo do encontro. Tomás guardou a caneta. Nenhum dos dois tocou imediatamente no computador. A rua seguiu fazendo seus ruídos, e a cooperação adquiriu, por alguns minutos, a forma concreta de duas cadeiras próximas.
⁂ • ⁂
A recepção guardava um cheiro de papel, chuva e almoço distante. Bia aparecera para saber como andava a chegada de Lia à cooperativa de histórias Aurora, mas saiu antes da resposta, chamada por alguém no corredor. Lia ficou olhando um crachá sem nome, tentando encontrar palavras que não soassem como defesa. Tomás conhecia aquele gesto. Também ele costumava escolher um detalhe inofensivo para encarar quando a verdade exigia contato visual. Dessa vez, porém, não ligou a tela nem ofereceu uma solução. Esperou. O silêncio abriu espaço suficiente para que Lia começasse pelo começo.
Tomás tinha o hábito de reler a última linha antes de salvar. Lia julgara aquilo uma superstição até descobrir que ele perdera, anos antes, o diário de uma comunidade inteira numa atualização apressada. Não perdera os arquivos para sempre; recuperara quase tudo. O quase, no entanto, continuava lhe ocupando a memória. Havia uma receita sem o nome da avó, uma carta sem despedida, um poema com a última estrofe deslocada. Por isso, quando dizia que precisava de mais alguns minutos, não estava pedindo tempo para parecer cuidadoso. Estava tentando merecer a confiança que recebera.
Bia trouxe um trecho escrito por uma criança: a lua saía para comprar pão e esquecia as estrelas no forno. Lia leu duas vezes, com a seriedade reservada às boas descobertas. Tomás perguntou se deviam corrigir a lógica da última frase. Ela o encarou; ele levantou as mãos, rindo antes de completar a piada. Decidiram preservar a lua distraída. O arquivo guardaria gramática e desvio, precisão e brincadeira. Ninguém precisava diminuir uma invenção para demonstrar que sabia reconhecer uma regra.
Antes de sair, Lia procurou um crachá sem nome mais uma vez. Sua posição quase não mudara, mas a sala parecia diferente. Ela sabia que era uma impressão e, mesmo assim, permitiu que a impressão a acompanhasse. Tomás apagou a luz depois que todos passaram pela porta. No corredor, os dois diminuíram o passo sem combinar. Havia uma pergunta esperando por eles, dessas que não se resolvem com uma resposta rápida. Por enquanto, bastava que nenhum dos dois tivesse pressa de chegar ao elevador.
Capítulo 2 O homem do café frio
Quando Tomás entrou na cozinha, Lia já havia escrito três possibilidades para o primeiro encontro de Lia com Tomás. A quarta permanecia na ponta da língua, dependente de uma coragem que o café não fornecia. Sobre a mesa repousava uma xícara lascada. Ele perguntou se podia abrir a janela; ela respondeu que sim, embora o vento espalhasse seus papéis. Passaram alguns minutos recolhendo folhas pelo chão. No fim, as alternativas estavam fora de ordem, e nenhuma parecia tão definitiva. A desorganização tinha concedido à conversa uma gentileza inesperada.
Do lado de fora, um vendedor anunciava frutas com uma melodia que mudava conforme a hora. Lia imaginou quantas versões daquela chamada existiam na memória do bairro. Nenhuma seria idêntica, embora todas contassem o mesmo dia. A ideia a tranquilizou. Também a história que estava construindo com Tomás podia suportar versões: a dela, cheia de perguntas; a dele, cheia de precauções; a de Bia, inevitavelmente mais engraçada. Não precisavam eleger uma verdade vencedora para continuar. Precisavam apenas identificar onde cada lembrança encontrava a outra e onde convinha deixar uma margem aberta.
Fizeram uma pausa para levar copos à pia. A tarefa levou mais tempo do que deveria porque descobriram uma torneira frouxa e uma colher desaparecida atrás do escorredor. Lia contou que sua mãe guardava colheres como quem administrava um tesouro de família. Tomás confessou que possuía apenas duas e jamais sabia onde estava a segunda. A conversa parecia distante do trabalho, mas deixou uma confiança miúda sobre a mesa quando voltaram. Agora sabiam algo um do outro que não cabia numa apresentação profissional e não precisava justificar sua utilidade.
09h02 | Lia: Sobre o primeiro encontro de Lia com Tomás: você consegue me ouvir por cinco minutos?
09h58 | Tomás: Consigo. Fechei as outras janelas. Pode começar.
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A cozinha guardava um cheiro de papel, chuva e almoço distante. Bia aparecera para saber como andava o primeiro encontro de Lia com Tomás, mas saiu antes da resposta, chamada por alguém no corredor. Lia ficou olhando uma xícara lascada, tentando encontrar palavras que não soassem como defesa. Tomás conhecia aquele gesto. Também ele costumava escolher um detalhe inofensivo para encarar quando a verdade exigia contato visual. Dessa vez, porém, não ligou a tela nem ofereceu uma solução. Esperou. O silêncio abriu espaço suficiente para que Lia começasse pelo começo.
Lia recordou a primeira oficina da Aurora. Uma senhora trouxera um romance inteiro dentro de uma sacola de supermercado e pedira desculpas pela letra pequena. Ninguém lhe dissera que uma vida precisava caber num formulário. Desde então, Lia desconfiava de ferramentas que prometiam simplificar tudo sem perguntar o que seria perdido. Queria um editor capaz de receber uma frase tímida e uma frase exagerada com a mesma paciência. Tomás ouviu essa lembrança sem interromper. Depois anotou a palavra paciência na margem, em vez de registrá la como um requisito que alguém poderia riscar depressa.
— Você confia nesse plano? — perguntou Tomás.
— Confio que a gente pode alterá lo quando descobrir alguma coisa melhor.
Ele olhou para Lia como se aquela fosse uma espécie nova de promessa. Talvez fosse. Ambos conheciam promessas que exigiam imobilidade: nunca mudar, nunca hesitar, nunca precisar de ajuda. Esta permitia movimento. Tomás escreveu a data no alto da página e deixou uma linha livre abaixo, reservada ao que ainda não sabiam.
⁂ • ⁂
Na cozinha, Lia percebeu primeiro uma xícara lascada. Alguém o deixara perto da janela, como se até os objetos precisassem olhar a rua antes de participar daquela história. Naquela manhã, o assunto era o primeiro encontro de Lia com Tomás. Ela chegara com uma lista de perguntas e a intenção firme de não transformar cada dúvida numa prova de competência. Tomás afastou uma cadeira, esperou que ela se sentasse e só então mostrou o caderno. A página tinha mais espaços em branco do que respostas. Lia gostou disso antes de admitir que gostara.
Do lado de fora, um vendedor anunciava frutas com uma melodia que mudava conforme a hora. Lia imaginou quantas versões daquela chamada existiam na memória do bairro. Nenhuma seria idêntica, embora todas contassem o mesmo dia. A ideia a tranquilizou. Também a história que estava construindo com Tomás podia suportar versões: a dela, cheia de perguntas; a dele, cheia de precauções; a de Bia, inevitavelmente mais engraçada. Não precisavam eleger uma verdade vencedora para continuar. Precisavam apenas identificar onde cada lembrança encontrava a outra e onde convinha deixar uma margem aberta.
Trabalharam com uma página de teste que começava com uma descrição de varanda e terminava numa receita de bolo. Entre as duas coisas havia uma despedida, seis mensagens e um parágrafo que mudava de ideia no meio. Lia selecionou uma palavra, aplicou itálico e depois desfez a alteração. Tomás acompanhou o cursor sem arrancar o mouse de sua mão. Cada movimento parecia banal, mas o resultado precisava sobreviver à repetição. Era fácil tratar bem uma frase isolada. O desafio era acolher milhares delas, inclusive as que chegavam cansadas, tortas e cheias de intenções diferentes.
A conversa terminou porque alguém chamou para o almoço. Não houve acordo solene nem música surgindo do nada. Lia fechou o caderno e deixou um marcador na página de o primeiro encontro de Lia com Tomás. Tomás recolheu os copos, atento à pequena coreografia de quem começa a compartilhar um espaço. Quando seus dedos se encontraram sobre a mesma alça, ninguém pediu desculpas. O contato durou apenas um instante; a lembrança pareceu escolher uma duração muito maior.
Nota da autora: o café desta cooperativa existe num estado indefinido entre bebida e lembrança. Qualquer semelhança com uma cafeteira real é responsabilidade exclusiva da imaginação de quem lê.